Da farda ao DNA: como um militar trocou
o quartel pelo laboratório

Coordenador do Pint of Science na Região Norte, Adolfo José da Mota era sargento no Vale do Paraíba
antes de se tornar professor de biologia no Amazonas

 

Aos 5 anos, Adolfo José da Mota já tinha morado com os pais em uma comunidade cristã-espírita localizada na Chapada dos Veadeiros e conhecido várias cidades brasileiras. Aos 18, estudava para ser atendente de enfermagem. Aos 19, era militar da Aeronáutica. Aos 30, se dedicava ao Doutorado em Ciências Biológicas na Universidade de São Paulo (USP) e, agora, aos 40, completados no último mês de janeiro, é professor na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). “Eu deixo a vida me levar e aceito quando acontece”, explica. 

Tudo, porém, poderia ter sido diferente se seu avô não tivesse feito uma exigência. Na segunda metade da década de 60, o pai de Mota era cabo da Aeronáutica e contou à família que pretendia se casar. Preocupado com a imagem dos militares após o golpe, o avô materno disse que só permitiria o matrimônio se ele desse baixa e a farda foi para o guarda-roupa. Virou lembrança.

“Meu pai começou a trabalhar como taxista, fez um pouco de tudo e virou professor como a minha mãe”, conta. Em 1978, logo após o nascimento de Mota, o casal decidiu se mudar de São Paulo com os filhos para dar aula na comunidade Cidade da Fraternidade, em Goiás. “Eu morava então em um lugar dedicado à educação. Estava sempre na escola. Desde que eu me reconheço por gente estou na escola”, brinca.

E essa foi apenas a primeira viagem. Ao longo dos anos, a família percorreu diferentes cidades. Por um lado, Mota diz que a experiência foi rica por permitir conhecer um pouco do Brasil. Por outro, carrega o fato de não ter amigos de infância. Mal se lembra dos nomes dos garotos.

Mota e familia


De volta à Aeronáutica – No primeiro ano do Ensino Médio, ele decidiu romper com o ciclo de viagens e foi morar com a avó paterna em São Paulo. Já no terceiro ano, começou a fazer um curso de atendente de enfermagem e acha que teria sido efetivado no hospital em que trabalhava, não fosse estar justamente na época de se alistar.

“Durante o alistamento militar, descobri que tinham aberto um concurso para soldado de primeira classe e, entre correr o risco de ser recrutado e fazer a prova, decidi fazer a prova. Passei e no curso de formação fui aprovado em primeiro lugar. Isso me permitiu escolher trabalhar no Hospital de Aeronáutica de São Paulo como auxiliar de enfermagem”, diz.

Mota começou a trabalhar no centro cirúrgico e na Unidade de Terapia Intensiva do HASP e, após cinco anos, prestou concurso para sargento. Aprovado, foi transferido para São José dos Campos e se mudou com a esposa e a filha para o Vale do Paraíba.

Ele poderia ter seguido na carreira militar, mas, insatisfeito com o ambiente de trabalho, com as perspectivas na carreira e financeiras, achou que seria melhor prestar concursos com exigência de ensino superior. Começou a pesquisar os cursos disponíveis nas universidades da região e, mesmo tendo lembranças não muito boas das aulas de biologia, escolheu essa carreira.

“Apesar dos meus pais serem professores, eu não era muito bom aluno. Reprovei a quarta série e tirei 0 na minha primeira prova de genética porque não entendia de onde vinha o A e de onde vinha o a”, lembra Mota. “Escolhi a Biologia porque era o curso com a mensalidade mais barata e porque durava só três anos”, confessa.

Quando o laboratório faz o olho brilhar – Durante a graduação na Universidade do Vale do Paraíba (Univap), Mota conheceu o professor Francisco Gorgônio da Nóbrega, referência na área de genética, e quis fazer iniciação científica. Não sabia que com isso estava mudando o rumo da história.

“Me encontrei no laboratório, me reconheci no laboratório. Concluí que era o que eu queria”, afirma. Com esse desejo em mente, ele se dividia entre a graduação e a pesquisa durante o dia e, à noite e nos fins de semana, dava plantões no Centro Técnico Aeroespacial (CTA).

E a família? “Naquela época eu a Simone já tínhamos a Larissa. A primeira infância dela foi mais sacrificada em relação a essa questão do tempo. Se eu pudesse mudar alguma coisa, mudaria isso”, pondera Mota.

Ele emendou a graduação ao mestrado, pediu baixa na Aeronáutica e, um dia após defender a dissertação, foi até o professor Nóbrega apresentar o projeto de doutorado. “A semelhança entre o militar e o pesquisador é a disciplina. Não adio muito. Eu trouxe para a carreira acadêmica esse ponto da praticidade e me ajuda”.

A descoberta da doença – Durante o doutorado, trabalhando com genética, Mota pediu ao orientador para investigar a existência de mutações em seu próprio DNA e descobriu que tanto ele quanto Larissa tinham uma doença metabólica. Ainda na maternidade, Mota fez o teste para a segunda filha recém-nascida e encontrou o mesmo traço genético: “Não deixa de ser um teste de paternidade”, brinca. Trata-se de um subtipo geneticamente determinado de diabetes, chamado MODY 2, que acomete cerca de 5% da população diabética e que pode passar despercebido porque a hiperglicemia em geral é leve.

A descoberta reforçou o interesse por pesquisas na área de genética humana e metabolismo e foi com esse foco que ele, Simone, Larissa e a pequena Isabela se mudaram para Manaus, após aprovação no concurso da UFAM. Na universidade, Mota criou um projeto para instalação de um laboratório capaz de fazer testes para diagnóstico de doenças moleculares a valores mais acessíveis. A proposta já foi aprovada, mas os recursos ainda não foram disponibilizados.

A expectativa com o projeto é oferecer não apenas o diagnóstico, mas também campanhas educativas, reforçando a importância do cuidado com a saúde, além de propiciar a formação de recursos humanos e pesquisas em uma região que, do ponto de vista acadêmico, ainda sofre preconceito. Muitos acham que não há pesquisa de qualidade no Norte do país e esse é uma das ideias que, como coordenador regional do Pint of Science, Mota quer desconstruir. Outra é a de que a ciência é algo distante. “Para mim, ciência é a curiosidade orientada por um método. A motivação é a curiosidade e, no meu caso, o DNA foi o instrumento”.

Texto: Stefhanie Piovezan  

 

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