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                                Por que cadeira se chama "cadeira" e não "mesa"?

       Uma resposta rápida e objetiva para a pergunta que abre este texto é tão simples que chega a parecer trivial: cadeira chama-se “cadeira” e não “mesa” porque sim! Em outras palavras, não há qualquer relação natural entre o objeto cadeira e o nome “cadeira”. Pelo menos, essa é a visão defendida pelo fundador da Linguística Moderna e pela maioria dos linguistas.

       Explico com calma: Ferdinand de Saussure, no famoso Curso de Linguística Geral – obra fundante da Linguística Moderna – estabelece que a Linguística deve se ocupar do estudo da linguagem verbal humana, a qual é manifestada através de signos. Os signos, por sua vez, são compostos de duas partes que se complementam: o significante (imagem acústica) e o significado (conceito).

       O significante corresponde aos sons (fonemas), isto é, à parte material da língua; enquanto isso, o significado é aquilo a que o significante se refere, ou seja, à ideia do objeto. Por exemplo, ao tratarmos do signo cadeira, o significante é o conjunto de sons que formam esse signo (c-a-d-e-i-r-a) e o significado desse signo é a ideia da cadeira real existente no mundo, ou seja, o objeto geralmente feito de madeira, plástico ou ferro, com quatro pernas e um encosto, usado para sentar.

ImagemFonte: svgsilh.com

       Assim, Saussure considera que a relação entre os sons que formam o signo e a sua imagem é arbitrária. Em outras palavras, cadeira poderia se chamar “mesa”, “parede” ou mesmo “árvore”. Portanto, o princípio da arbitrariedade explica por que o objeto cadeira recebe nomes diversos em línguas diversas, tais como “chair” em inglês, “Stuhl” em alemão ou “isihlalo” em zulu.

       Além disso, vale considerar também o conceito de língua, estabelecido por Saussure: para ele, a língua é o principal sistema de signos, sistema esse baseado em um contrato social. Dessa forma, se cadeira se chama “cadeira” e não “mesa” ou “parede” é porque um grupo de indivíduos definiu isso por meio de um contrato social, o qual, na visão do autor, não é possível de ser rompido por apenas um falante. Caso um indivíduo venha a romper, sozinho, o contrato o social estabelecido, ele não será compreendido pelos demais.

Então, de maneira resumida, podemos responder que não há nenhum motivo natural para cadeira se chamar “cadeira”, o que há é um contrato social estabelecido pelos falantes de uma determinada língua.

Um contraponto: nem tudo é arbitrário...

       Muito antes de Saussure já se tentava responder por que as coisas recebem determinados nomes e não outros. O primeiro texto a que temos acesso sobre esse tema encontra-se no Crátilo ou sobre a correção dos nomes, um diálogo escrito por Platão, no qual Sócrates sugere que alguns sons rememoram determinadas formas perceptuais. Assim, por exemplo, o r daria a ideia de alteração, de movimento e de dureza. O l, por sua vez, daria a ideia de lisura e de moleza.

       Recentemente, alguns estudiosos resolveram recuperar e testar as ideias de Sócrates a partir de experimentos. Um deles foi conduzido por Mahayana Godoy. Nesse experimento, a pesquisadora trabalhou com Pokémons novos e pediu aos participantes (falantes nativos de português brasileiro e de japonês) que criassem ou escolhessem um nome já pronto para Pokémons pré e pós-evolução. Os resultados foram bastante interessantes e parecidos nas duas línguas observadas: os Pokémons pré-evolução receberam mais nomes com a vogal i e os pós-evolução receberam mais nomes com a vogal a.

 Pokémon Pachirisu , fonte da imagem: pngimg.com

       O próprio Sócrates já especulava que haveria uma relação entre a vogal a e objetos grandes e entre a vogal i e objetos pequenos. Assim, de certa forma, podemos considerar que Sócrates estava certo: as pessoas (mesmo falantes de línguas bastante diferentes) tendem a usar os mesmos sons para nomear objetos desconhecidos, pois os sons escolhidos parecem ser mais adequados a algumas características do que outros.

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       Este post foi escrito por Dener Gabriel Ferrari, mestrando em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas. Dener estuda como os sentidos são construídos na interação entre indivíduos, a partir de determinadas condições sócio-histórico-culturais.

Para saber mais!

       Caso tenha interesse por entender um pouco mais acerca das contribuições de Ferdinand de Saussure para a constituição da Linguística Moderna, você pode ler uma matéria feita pelo Globo Ciência aqui. Caso prefira um texto acadêmico, indico, além do próprio Curso de Linguística Geral, o capítulo A língua como objeto da Linguística, de José Antônio Pietroforte, que integra o livro Introdução à Linguística, organizado por José Luiz Fiorin.

       Já se você se interessou pelas ideias de Sócrates, você pode ler o diálogo de Platão, Crátilo ou sobre a correção dos nomes, ou um resumo comentado publicado no site Apókrisis. Você também pode ler dois textos de divulgação científica publicados por Mahayana Godoy, O que é um nome? Simbolismo sonoro e linguagem e Sócrates, Pokémon e Simbolismo Sonoro.

Referências

Imagem da capa: publicdomainpictures.net

APÓKRISIS. Sobre a correção dos nomes: resumo comentado do diálogo platônico “Crátilo”. In: Apókrisis, 28/05/2018. Disponível em: <https://apokrisis.org/2018/05/28/sobre-a-correcao-dos-nomes/>. Acesso em 04 de julho de 2020.

GODOY, Mahayana. O que é um nome? Simbolismo sonoro e linguagem. In: Roseta. Disponível em: <http://www.roseta.org.br/pt/2018/05/13/o-que-ha-em-umnome-simbolismo-sonoro-e-linguagem/>. Acesso em 05 de março de 2020.

GODOY, Mahayana. Sócrates, Pokémon e Simbolismo Sonoro. In: Blogs Unicamp: Linguística, 04/12/2018. Disponível em: <https://www.blogs.unicamp.br/linguistica/2018/12/04/socrates-pokemon-e-o-simbolismo-sonoro/>. Acesso em 06 de março de 2020.

PIETROFORTE, Antonio Vicente. A língua como objeto da Linguística. In: FIORIN, José Luiz. Introdução à Linguística. 3 ed. São Paulo: Contexto, 2004, p. 75-93.

SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. Trad. Antônio Chelini, José Paulo Paes e  Izidoro Blikstein. 27 ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

SOUZA, Luciano Ferreira de. Platão. Crátilo. Estudo e Tradução. 2010. Dissertação (Mestrado em Letras Clássicas) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas,  Universidade de São Paulo, São Paulo. Disponível em: <https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8143/tde-14062011-133520/publico/2010_LucianoFerreiradeSouza.pdf>. Acesso em 05 de julho de 2020.